Outro Lapeano Honrado
Quando o irreverente e folclórico Interventor do Paraná Manoel Ribas, vulgo Maneco Falcão, visitou a cidade histórica da Lapa, chegou bem cedo, viu pouco gente nas ruas e disse uma frase pejorativa, bem ao seu estilo: “Lapa, terra de heróis e berço de vagabundos!” Bem se viu que ele não conhecia a fidalguia e nem fibra dos lapeanos, quando na revolução Federalista os republicanos (Pica-paus) liderados pelo Gal. Gomes Carneiro, com a cidade cercada pelos federalistas (Maragatos) que vinham do Sul do país, apesar da falta de alimentos e munições, resistiram por 26 dias e apesar de derrotados permitiram que as tropas legalistas se reagrupassem e derrotassem os insurretos. Página heróica de uma cidade que orgulha seu povo e é sempre enaltecida pelos brasileiros de bem. Terra de filhos ilustres como Hypolito Alves de Araújo, Ney Braga, Flávio Suplicy de Lacerda, David Wiedmer Neto, Francisco e Joaquim Brito de Lacerda, Pedrito Leoni, Alexandre Weinhardt Silveira dentre muitos outros. A arquitetura colonialista da Lapa parece cenário da época do Império, com relativo tráfego de veículos, ruas com poucos pedestres, bem típico de uma cidade ordeira onde o povo trabalhador está mais voltado a sua faina diária. O lapeano prima pela discrição e honra a palavra que dá. Sou filho, neto e sobrinho de lapeamos, tive o privilégio de iniciar a minha carreira como Promotor de Justiça Substituto na Terra de minha mãe, e depois, como Promotor de Justiça, morei com esposa e filho na rua Cel. Eduardo Corrêa, atrás da Igreja Matriz de Santo Antônio (Padroeiro da cidade). Fiz este introito para contar uma cena que testemunhei e que serviu para dignificar a história de um homem de biografia irretocável. Seu nome Augusto Alves Guimarães, serventuário da justiça, agente delegado do Cartório de Registro de Imóveis da Comarca da Lapa. O fato aconteceu quando o saudoso des. Marino Bueno Brandão Braga, então Corregedor Geral da Justiça, magistrado respeitado e cioso de seus deveres, esteve na Lapa onde instalou uma Correição Extraordinária, auxiliado pelo funcionário Mela, ocasião em que todos serventuários do foro judicial e extrajudicial se submeteram ao rigoroso crivo da correição (fiscalização e ordem dos trabalhos). A sessão de verificação dos livros dos cartórios é pública, contando com as presenças do Juiz de Direito e do Promotor de Justiça da Comarca, autoridades municipais, advogados e o povo em geral. Quando chegou a vez do sr. Augusto apresentar o seu Título de Nomeação e os livros do cartório, o des. Marino, a viva voz, dispensou referida fiscalização:
-Autoridades presentes, povo da Lapa. Dispenso verificar a lisura dos atos cartoriais do Sr. Augusto Guimarães, pessoa da mais alta respeitabilidade desta cidade, homem probo, respeitoso e serventuário que é um exemplo de retidão e cumpridor de suas obrigações. Dispenso, repito, a correição de seus atos funcionais que atesto como absolutamente corretos.
Os presentes aplaudiram o gesto do ilustre Corregedor.
E como eu era o Promotor de Justiça nunca esqueci deste episódio, razão pelo qual transcorridos quase sessenta anos, registro nesta minha crônica, para recordar do saudoso Augusto Guimarães, um lapeno da boa cepa, um cidadão que também deixou rastros profundos por onde passou…
“Quem conheceu o des. Marino sabe muito bem avaliar o seu temperamento austero, que impunha respeito, por sua retidão e imparcialidade que agia como Magistrado. Homem sensível e justo, ao dispensar a fiscalização do cartório do Sr. Augusto Alves Guimarães, prestou a este uma homenagem inesquecível que vale a pena registrar para s posteridade”