Bolinho de Graxa
No tempo da Rede Viação Paraná - Santa Catarina ( RVPSC) ) era prazeiroso descer a Serra do Mar de trem, curtir os túneis, pontes e abismos num traçado férreo tão antigo que engrandece a engenharia e a bravura de seus construtores. É claro que hoje tem vagões muito mais confortáveis da Empresa Serra Verde, do meu amigo Adonai Arruda, um empreendedor que continua oferecendo a mesma viagem, para a alegria dos turistas de todas as partes do mundo. As diferenças estão apenas nas estações onde o trem parava, hoje quase todas elas abandonadas, com a residências dos ferroviários depredadas e ninguém mais nas redondezas. Sinal de que a malha ferroviária brasileira foi abandonada pelo governo federal. Tudo na contramão da economia para favorecer a indústria automobilística. Uma triste constatação. Mas antes não era assim, na estação de Curitiba o agito começava cedo pois o trem partia rigorosamente às 07:30, logo após o chefe da estação tocar o sino, com o maquinista tocando por três vezes o apito estridente de sua Maria Fumaça, quando então as pesadas rodas de ferro começavam a gemer sobre os trilhos, no som quase audível de quem dizia “café, com pão; café com pão; piuiuiii” e o trem deixava a gare para mais um viagem inesquecível. Nos vagões de primeira e segunda classe os passageiros se acomodavam, as crianças ficavam atônitas, os mais velhos não perdiam os momentos para apreciar da janela, a cidade ficando cada vez mais para trás, até começar os campos, que logo em seguida eram envolvidos pelas árvores e minutos depois a parada na primeira Estação de Piraquara, que não durava mais de cinco minutos, tempo suficiente para que algum morador da região pudesse embarcar. E dali em diante o trem pegava velocidade, balançando os vagões sobre os trilhos, numa dança sonolenta que embalava o sono de muitas crianças. Em cada quilômetro percorrido sempre um cenário inesquecível, com poucas casas em lugares nunca esperados. De repetente uma pequena ponte, um lago, e a mata densa. “Café com pão; café com pão; priiiiii” o maquinista apitava para anunciar que estava se aproximando da Estação de Banhado, daí, dentro do trem, formava uma expectativa nunca vista, principalmente para os homens, chefes de família, que ficavam em pé nas proximidades da porta de saída, para quando o trem parasse, pudessem descer na plataforma da estação para comprar o tão esperado bolinho de graxa, muitos voltavam para dentro do vagão para entregar ditos quitutes aos seus familiares, enquanto que outros, saboreavam no bar da estação o bolinho com uma xícara de café com leite.
Tudo às pressas, porque a parada não era superior a quinze minutos, pois a viagem estava apenas começando. E quando o maquinista apitava uma, duas e na terceira vez a pesada composição reiniciava seu gemido: “café com pão; café com pão”, os passageiros que tinham descido disputavam com seus pares o degrau para poderem subir de volta no vagão. A parada na Estação de Banhado seguia igual ritual por anos a fio, o bolinho de graxa é chamado hoje de “bolinho da vovó”, resultado de uma fritura com poucos componentes mas que na referida parada tinha o sabor de se estar vivendo uma grande aventura. Infelizmente, hoje em dia, quem viaja de trem ou automotriz (litorina) até a cidade de Morretes, passa pela Estação Banhado só consegue o ler o nome do local, com a estação fechada, o lugar em estado de abandono, onde os turistas nem prestam muito a atenção, e o pior, nem podem imaginar que ali, um dia, serviam um tal de bolinho de graxa, uma especiaria que encantou o paladar de muitos passageiros que usufruíam do trem da RVPSC. Esta sigla foi alvo de muitas lorotas, os mais gozadores diziam que era a abreviatura de: “Rute, Viu, Papai Sem Calça”; e os mais críticos contestavam, afirmando, que era: “Restaurante Vagabundo, Pastel Sem Carne”. Hoje, nem a Rede Viação existe, mas deixou um legado cuja história é lembrada por muitos paranaenses que tiveram o privilégio de percorrer os trechos ferroviários que ligavam Curitiba à Paranaguá e Curitiba à Antonina…
“Hoje é possível viajar de trem descendo a Serra do Mar para apreciar a beleza das paisagens, além de ficar admirado com os trechos perigosamente esculpidos nas encostas das montanhas, obra criadora de pessoas ungidas pelo Criador. Mas ninguém mais vai comer os bolinhos de graxa e nem tomar uma xícara de café com leite, na Estação de Banhado. É pena, muita pena.”